terça-feira, 30 de agosto de 2011
Crônica da magrela louca
Neste mês que passou, estive tão ocupada que não pude prestar muita atenção no que acontecia pelo mundo afora.
Só sei que havia um polvo argentino, chamado Bruno, que matou o goleiro bonitão da seleção espanhola com um tremendo chutaço na cobrança do pênalti que não houve, mas que o juiz japonês apitou equivocadamente.
Daí o Nelson Mandela botou a boca na vuvuzela pra denunciar o enriquecimento ilícito do urânio iraniano. Mas o vaiatolá de lá se justificou dizendo que precisava se defender dos ataques do demônio imperialista turco, que afundou um navio-petroleiro judeu no Golfo do México, na maior traição, bem na hora do jogo do Brasil contra a Uganda, que veio na maior gana de vencer o dream team tupiniquim na Costa do Marfim.
A coisa foi tão séria que até o Fidel, que andava meio morto e enterrado, apareceu vivinho de castro na TV e fez um breve discurso de 97 horas só pra dizer que charuto não é chupeta e que o Dunga tinha toda a razão de andar zangado com aqueles jogadores molengões de uma figa, que só tavam interessados em fornecer manchester pro arsenal da globo em real madrid. Pra piorar, ganham polpudos salários em euros capitalistas selvagens e, no mais solene desrespeito com o meio ambiente, ainda eliminaram um tal de pato ou ganso chamado Neimar. Dizem que esse aí chegou até a fazer greve de fome, deixando de ser tão fominha ao pegar na bola e passando a dar passe e jorei pra todo lado. Hum-hum, zinfíi...
E no final de tudo, descobriu-se que o grande vilão da história foi o Mick Jagger que, com o seu notório pé gelado, trouxe má sorte pro esquete brasileiro. O qual, em vez de rolar a jabiraca, acabou foi rolling stones...
(texto postado no Recanto das Letras em 15/07/2010)
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Nóis agora é crasse média!
-- Creuzileidy, minha nêga, nóis agora é crasse média! :)
Foi assim que o "Assistente Operacional da Construção Civil" -- ex-ajudante de obras --, desempregado, naturalmente, e sustentado pelo Seguro Desemprego, bem como pela Bolsa Família e pelos eventuais bicos em que faz de conta que trabalha, comemorou a aquisição de seu mais recente bem de consumo: uma TV LCD de 42 polegadas.
Mas a Creuzileidy, sua nêga, que estava naqueles dias de TPM e lucidez, rebateu de bate-e-pronto:
-- Só se for crasse m é r d i a , Wesleyson, pruque a fossa tá vazano de novo. E tá essa nojera tudo imporcaiano e carcumeno a rua, que os ômi disse que ia butá isgoto e carçamento pra nóis e num butô nadinha, tem pra mais de oito ano que eles diz que vai ponhá e num sai do "diz-qui-faiz".
-- Ah, Creuzileidy, tu larga de sê injusta, muié. Nóis agora tem geladera fró... fróis... aquele trem que num pricisa de discongelá, mánica de lavá ropa, forno de microonda, parêio de som cum MP3 inté MP1000, computadô, celulá, tudim que nóis comprô cum prestação bem baratim.
-- Larga de sê troxa, ômi! Se ocê faiz as conta, quando que ocê cabá de pagá essas prestação, vai tê pagado duas ou trêis vêiz o valô dessa trapizonga tudo, ô bestcha! Tu tá é encheno a burra dos dono das loja. Se ocê tinha guardado esse dinhero na popança, no final do mermo tempo que vai levá pra cabá de pagá as prestação, tu comprava tudim que comprô em dobro.
-- Mais aí nóis ficava sem geladera, sem microonda, sem TV LCD, sem nada inté pudê comprá.
-- Ô, Wesleyson, criatura, raçocina mais eu: tu num viveu inté hoje sem essas traia tudo? Tu morreu pru causa disso? Custava vivê mais um cadim desse jeito e isperá pra num isperdiçá dinhero, ômi de Deus?
-- Ô, Creuzileidy, nóis num pudia isperá nada. Vai que o ômi lá de cima num consiguia elegê de novo nem num consiguia elegê aquela otra lá que vai fazê ingalzim ele. Aí pirigava nóis perdê essa ajuda tudo que eles dá pra nóis. Ocê num se alembra cumé que era antes, não? Nóis tinha que ralá feito uns condenado pra ganhá uma mixaria.
-- É, pelo meno nóis ganhava cum o suó do trabaio nosso honestcho e num pricisava de ficá dependeno desse ou daquela elegê pra nóis ficá nessa vagabundage, cum o fiofó na mão de medo de perdê a mamata.
-- Tu prifiria ralá feito uma condenada, muié?
-- Prifiria e prifiro ainda. É mais honestcho. Até pruque se nóis trabaia, nóis tem mais pudê de barganhá, de inxigi os direitcho nosso. Sem contá que tu naquele tempo num vivia bebo feito um gambá o tempo todo, era só de vêiz em quano.
-- Tu tem cada ideia, muié! Eu prifiro cuma é agora. Os minino nem num tem que ir pra iscola mais pra nóis ganhá a bolsa!
-- É, os minino nem num tem mais que ir pra iscola, nem num ia mermo pruque num tem merenda e os professô veve de greve, inda pirigava o teto da iscola dispencá nas cabecinha deles. E ocê acha isso bão, né? Teus fíi vai crecê burro ingal ocê, sem instrução, sem profissão, uns disqualificado, e ocê acha que isso é bão.
-- Mais eles pode istudá na facudade! Agora é moleza entrá na facudade.
-- Wislim, meu nêgo, antes de entrá na facudade eles pricisa istudá na iscola. Linhais, nem num pricisa entrá na facudade pra aprendê um ofiço decente de bombero, de letricista, de técono de computadô, de um monte de ofiço bão que aprende na iscola ténica. Num sei pruque que os pissuá tudo só qué sabê de facudade agora! Ocê já pensô se todo mundo qué sê só dotô, onde é que vai rumá gente pra fazê o trabaio do letricista, do bombero, do técono...?
-- Isso é pobrema deles lá de cima. Eles que resolve. É só nóis continuá votano em quem que o ômi aquele mandá nóis votá, pra num perdê os adijutório.
-- Ô, Wesleyson de Deus, ômi, ocê acha mermo que isso vai continuá pra todo sempre, criatura? Um dia tudo isso pode cabá, istancá. Um dia eles pode dizê sem mais nem essa nem aquela que o dinhero deles lá cabô e que num tem mais pra dá pra nóis. Se ocê se fia nessa esmolança pra vida toda, tu é mermo uma besta, Wislim!
-- Ô, Creuzileidy, ocê acha mermo que isso pode assucedê? Se o dinhero cabá, eles manda fazê mais.
-- Ômi do céu, tu é mermo disinformado. Eles num tem pudê de fazê dinhero. Eles pricisa vendê uns trem pros istrangero, pegá os imposto que os crasse média de verdade paga cum os salaro deles e essas coisa que eu num comprendo muito bem, mas que é assim que assucede. Se um dia dá um pipoco nos negoço dos rico e dos istrangero, nóis tudo fica no sal.
-- Cuma é que ocê sabe isso?
-- Pruque eu era impregada de uma professora que ixplicô tudim pra eu. Foi onde que eu assuntei que o istudo faiz mermo falta. E que se nóis qué mermo sê crasse média, nóis tem que istudá pra aprendê um ofiço, trabaiá, ganhá salaro e pagá imposto pra pudê morá num bairro com rua carçada, cum isgoto, com ombus miózim e iscola e hospital de gente rico. E votá no candidato que nóis iscoiê não pruque vai dá ismola, mais pruque vai fazê miorá as rua, os isgoto, os hospital, as iscola, os emprego, mas miorá de verdade, né só de prometê ou de dizê que feiz e num feiz nada.
-- E inxiste candidato esse que promete essas coisa e faiz, nêga?
-- Taí, Wislim, tô pra vê um que faiz isso pra nóis que é crasse mérdia, meu nêgo. Eles só faiz mioria mermo é pra gente rico. Pra nóis, ou eles dá uma ismolinha ou eles dá só promessa.
*
No dia em nós, como povo, entendermos que depende muito da gente -- e não só dos políticos, que são do mesmo povo e eleitos por nós, do povo --, este país poderá se desenvolver de verdade e não só de faz de conta.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Mudansança
Mudança é bom, a gente muda de ares, lares e lugares, mudam-se as paisagens, as visagens e outras agens, mudam-se os vizinhos, os caminhos e os eventuais espinhos, mas também cansa. E como cansa!
Não foi desta vez ainda que me mudei, mas ajudei a mudar o Binha, amigo-sobrinho muito querido, companheiro das happy hours (e das bad hours também), bom de copo e de papo e que, como eu, não perde a piada nem o amigo nem chance alguma de destilar o mais puro besteirol pra pontuar os assuntos sérios que insistem em ser debatidos nesta vida séria de adulto.
Não que eu estivesse muito disposta a pegar no pesado, que amizade tem limites, tanto que cheguei, me sentei na única cadeira livre, abri uma cerveja e fiquei filosofando sobre o quanto o trabalho alheio é dignificante e construtivo, algo que realmente nos enobrece e motiva. Mas logo-logo o sujeito me delegou tarefas bem criteriosas: de fato, não peguei no pesado, mas caminhei quilôôômetros indo ali no comércio de quando em vez pra comprar miudezas e que tais, buscando carrinho de compras do condomínio e fazendo trocentas viagens pra me livrar das caixas que aos poucos foram se esvaziando y otras cositas mas.
Nessas idas e vindas, fiquei íntima dos porteiros e de alguns dos vizinhos, que pensavam que era eu a feliz nova moradora do pedaço. E a Providência premiou minha prestatividade, ainda que compulsória, ao colocar ali no banco de concreto dos pilotis um rapaz ensaiando um belíssimo violão erudito, tocado com muita competência e graça, quiçá um rondó ou algo do gênero, e eu me pus ali parada, toda ouvidos, até me lembrar que não tava ali a passeio, mas isaurando por um amigo que já isaurou por mim também em outras ocasiões. Um mamão lava o outro, né?
Agora o Binha tá lá, junto com os filhotes, muito bem alojado, ou melhor, apartamentado, tudo nos lugares certos -- que o moço é jeitoso e logo transformou aquela balbúrdia de coisas dispersas num lar acolhedor e bonito -- e isso deixou todo mundo contente. E eu fiquei com mais vontade ainda de que chegue logo a minha vez de juntar as tralhas todas e me mandar daqui pra outro canto mais promissor e aconchegante. Há de. Preciso tirar o limo, como fazem as pedras que rolam.
Enquanto não chega a minha vez, continuo aqui ralando e me recuperando da canseira que foi descansar ajudando o amigo-sobrinho a se mudar. Ufa!... Tá pensando que é mole ficar olhando os outros enquanto eles pegam no pesado, tá? Eu fiquei e-xaus-ta!
domingo, 10 de outubro de 2010
Tremendão!
"Well, shake it up baby now
(Shake it up baby)
Twist and shout"
(The Beatles - Phil Medley / Bert Russell)
Eu tava na ressaca de uma pós-enxaqueca, meio zonza, meio lesa, quando de repente a mesa do computador começou a chacoalhar. Pensei que tinha dado um esbarrão na dita cuja, sem me dar conta do fato, e segurei a beirada pra estabilizar. Mas em vez da mesa parar, a cadeira também começou a chacoalhar de levinho. E eu pensei: que melda é essa? Será que eu tô assim tão trêmula?
Só no dia seguinte fiquei sabendo o que tinha acontecido. Ao ler o jornal, vi que Brasília e Erasmo Carlos tinham algo em comum: ambos são tremendões. Uma placa tectônica resolveu se espreguiçar e provocou a chacoalhada no Planalto Central. Pelo menos foi isso que os geólogos disseram. Eu tenho outra teoria.
A pele do cavalo dá umas tremidinhas pra espantar as moscas, não dá? Pois foi isso que a pele do planalto fez: deu uma tremidazinha básica pra espantar os parasitas. Pena que não tremeu o bastante. Os parasitas continuam aqui, alguns no final do prazo de validade, outros prestes a renovar, outros mais a iniciar.
E os maledicentes elaboraram uma terceira teoria: dizem que foi um flato da Dilma que causou a tremedeira. Que exagero! Ela não tá com todo esse gás, não. Mas bem que poderia ter acontecido de o planalto estar tremendo de medo que a Wilza... não, a Wilma... não, a Weslian Horroriz ganhe no segundo turno. Afinal, se um horroriz incomoda muita gente, dois horrorizes incomodam, incomodam muito mais.
(Shake it up baby)
Twist and shout"
(The Beatles - Phil Medley / Bert Russell)
Eu tava na ressaca de uma pós-enxaqueca, meio zonza, meio lesa, quando de repente a mesa do computador começou a chacoalhar. Pensei que tinha dado um esbarrão na dita cuja, sem me dar conta do fato, e segurei a beirada pra estabilizar. Mas em vez da mesa parar, a cadeira também começou a chacoalhar de levinho. E eu pensei: que melda é essa? Será que eu tô assim tão trêmula?
Só no dia seguinte fiquei sabendo o que tinha acontecido. Ao ler o jornal, vi que Brasília e Erasmo Carlos tinham algo em comum: ambos são tremendões. Uma placa tectônica resolveu se espreguiçar e provocou a chacoalhada no Planalto Central. Pelo menos foi isso que os geólogos disseram. Eu tenho outra teoria.
A pele do cavalo dá umas tremidinhas pra espantar as moscas, não dá? Pois foi isso que a pele do planalto fez: deu uma tremidazinha básica pra espantar os parasitas. Pena que não tremeu o bastante. Os parasitas continuam aqui, alguns no final do prazo de validade, outros prestes a renovar, outros mais a iniciar.
E os maledicentes elaboraram uma terceira teoria: dizem que foi um flato da Dilma que causou a tremedeira. Que exagero! Ela não tá com todo esse gás, não. Mas bem que poderia ter acontecido de o planalto estar tremendo de medo que a Wilza... não, a Wilma... não, a Weslian Horroriz ganhe no segundo turno. Afinal, se um horroriz incomoda muita gente, dois horrorizes incomodam, incomodam muito mais.
segunda-feira, 20 de setembro de 2010
NOVAS PROFISSÕES
- Almoxerife: policia e prende quem rouba o almoxarifado.
- Anustesista: aplica anestesia com injeções no... glúteo.
- Arquitétrico: só faz casas medonhas.
- Azulegista: faz necropsia de azulejos finados.
- Betaiate: o segundo costureiro da turma; o primeiro é o Alfaiate.
- Biombeiro: combate incêndios em biombos e divisórias em geral.
- Boiólogo: estuda as bichas.
- Corpinteiro: faz telhados altos, onde cabe uma pessoa de pé.
- Costoureiro: responsável pelas roupas dos ídolos das touradas.
- Devogado: profissional do Direito com especialização em trambiques pecuários.
- Escrotor: escreve livros horrendos.
- Exgenheiro: só faz projetos externos.
- Farmacético: não acredita muito nos remédios que comercializa.
- Fornoaudiólogo: ensina pessoas com problemas de fonação e audição a preparar deliciosas tortas.
- Jardinheiro: expert em plantar e cuidar de grana.
- Ingenheiro: só faz projetos internos.
- Menteorologista: faz previsões climáticas furadas na TV.
- Merceneiro: faz móveis apenas por interesse pecuniário.
- Motoboi: faz delivery de carne pra churrasco.
- Motorrinolaringologista: trata dos ouvidos e garganta de motoqueiros.
- Observente de Peidreiro: aprendiz de peidreiro (veja adiante o verbete para este último).
obs.: alguns etimólogos preferem o termo Absorvente de Peidreiro.
- Osculista: especialista em beijos.
- Ourríveis: lida com artefatos de ouro de extremo mau gosto.
- Peidreiro: usa gases biodigestivos na argamassa aerada.
- Percevejeiro: faz, perseverantemente, cerveja à base de percevejos.
- Pilontro: corredor automobilístico que sacaneia os adversários.
- Pisaiolo: prepara pizzas inclinadas.
- Piscólogo: estuda todo tipo de piscadas e piscadelas.
- Pobrecitário: faz propagandas para empresas que estão no vermelho.
- Ripórter: comunicador que só faz matérias engraçadas.
- Saparteira: só faz parto de caminhoneiras, estivadoras e sapatões grávidas em geral.
- Anustesista: aplica anestesia com injeções no... glúteo.
- Arquitétrico: só faz casas medonhas.
- Azulegista: faz necropsia de azulejos finados.
- Betaiate: o segundo costureiro da turma; o primeiro é o Alfaiate.
- Biombeiro: combate incêndios em biombos e divisórias em geral.
- Boiólogo: estuda as bichas.
- Corpinteiro: faz telhados altos, onde cabe uma pessoa de pé.
- Costoureiro: responsável pelas roupas dos ídolos das touradas.
- Devogado: profissional do Direito com especialização em trambiques pecuários.
- Escrotor: escreve livros horrendos.
- Exgenheiro: só faz projetos externos.
- Farmacético: não acredita muito nos remédios que comercializa.
- Fornoaudiólogo: ensina pessoas com problemas de fonação e audição a preparar deliciosas tortas.
- Jardinheiro: expert em plantar e cuidar de grana.
- Ingenheiro: só faz projetos internos.
- Menteorologista: faz previsões climáticas furadas na TV.
- Merceneiro: faz móveis apenas por interesse pecuniário.
- Motoboi: faz delivery de carne pra churrasco.
- Motorrinolaringologista: trata dos ouvidos e garganta de motoqueiros.
- Observente de Peidreiro: aprendiz de peidreiro (veja adiante o verbete para este último).
obs.: alguns etimólogos preferem o termo Absorvente de Peidreiro.
- Osculista: especialista em beijos.
- Ourríveis: lida com artefatos de ouro de extremo mau gosto.
- Peidreiro: usa gases biodigestivos na argamassa aerada.
- Percevejeiro: faz, perseverantemente, cerveja à base de percevejos.
- Pilontro: corredor automobilístico que sacaneia os adversários.
- Pisaiolo: prepara pizzas inclinadas.
- Piscólogo: estuda todo tipo de piscadas e piscadelas.
- Pobrecitário: faz propagandas para empresas que estão no vermelho.
- Ripórter: comunicador que só faz matérias engraçadas.
- Saparteira: só faz parto de caminhoneiras, estivadoras e sapatões grávidas em geral.
- Saúva-vidas: zela pela segurança das formigas nas praias.
- Timtureiro: lava e passa celulares da Tim.
- Veturinário: urologista animal.
- Veturinário: urologista animal.
domingo, 8 de agosto de 2010
Coleta Seletiva de Lixo
Passando em frente ao Congresso, reparei que por ali por perto havia daqueles recipientes coloridos para coleta seletiva de lixo. Então, além de os próprios nobres parlamentares (como de costume), uma dúvida cruel me assaltou:
Em qual deles devemos descartar deputados e senadores?
Afinal, todos são orgânicos, pois organizam-se em quadrilhas para tramar falcatruas e sugam o erário dos órgãos responsáveis pelo bem estar geral da Nação. Fora o que, todos têm prazo de validade e muitos já cheiram à podridão há muito tempo. Mas alguns são recicláveis e, entra governo, sai governo, seja dito de direita ou de esquerda ou neo-liberal, estão sempre voltando pra onde jamais deveriam ter ido, ou seja, pro Poder.
Poderiam também ser descartados nos recipientes destinados à madeira, porque todos, sem exceção, caracterizam-se pela lustrosa cara de pau.
Mas também podem ser jogados nos recipientes para vidro, pois não há entre eles quem não tenha telhado feito deste material.
Poderiam também ser descartados nos recipientes destinados à madeira, porque todos, sem exceção, caracterizam-se pela lustrosa cara de pau.
Mas também podem ser jogados nos recipientes para vidro, pois não há entre eles quem não tenha telhado feito deste material.
Poderiam ainda ser descartados nos recipiente para metal, pois seus bolsos, cuecas, malinhas e maletas, bem como meias, vivem recheados de vil metal.
No de papel também, porque os projetos que enchem as vistas dos eleitores não saem do papel e eles, os nobres parlamentares, vivem fazendo papelão. De quê, nem preciso dizer.
Sei não... às vezes penso que um bom e velho aterro sanitário pode dar conta disso. Afinal, sanear as finanças públicas talvez dependa de um gesto radical: botar tudo no lixo mesmo e, de repente, fazer com que virem adubo. Mas não esquecendo de descontaminar antes, para que a ladroeira não dê frutos. Economizamos os recipientes e os conservamos para reciclar o que deve ser reciclado, jogamos fora o que deve ser jogado e, acima de tudo, pensamos no meio ambiente: deixamos apenas aqueles políticos realmente interessados na sustentabilidade e na preservação da nossa natureza (se é que eles existem): tanto a biológica, com nossas matas e rios, quanto humana - nossa propalada credulidade e ingenuidade, que deixou que as coisas chegassem a esse ponto!
Sei não... às vezes penso que um bom e velho aterro sanitário pode dar conta disso. Afinal, sanear as finanças públicas talvez dependa de um gesto radical: botar tudo no lixo mesmo e, de repente, fazer com que virem adubo. Mas não esquecendo de descontaminar antes, para que a ladroeira não dê frutos. Economizamos os recipientes e os conservamos para reciclar o que deve ser reciclado, jogamos fora o que deve ser jogado e, acima de tudo, pensamos no meio ambiente: deixamos apenas aqueles políticos realmente interessados na sustentabilidade e na preservação da nossa natureza (se é que eles existem): tanto a biológica, com nossas matas e rios, quanto humana - nossa propalada credulidade e ingenuidade, que deixou que as coisas chegassem a esse ponto!
Provavelmente, em frente ao Planalto não haverá desses recipientes para lixo reciclável. É possível que haja apenas um grande contêiner, porque não há como se diferenciar um presidente de outro, nem um ministro do supremo de outro: é tudo a mesma b... bela porcaria. E como fedem!...
Bem, pelo menos temos alguém feliz com isso: as moscas.
Maria Iaci e Vany Grizante
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Neurônios nada poéticos e muito calorentos
Aqui estava eu, tentando compor uma poesia de amor... mas o calor (e não é pra rimar) está demais!
Imagine o verão no inferno... Imaginou? Pois aqui está mais quente ainda!
Então meus neurônios se rebelaram e resolveram que eu só iria escrever o que eles quisessem. Assim, conforme eu tentava escrever um verso, eles já se interpunham e o reescreviam.
Meus neurônios com calor ficam insuportáveis!
E a poesia ficou assim:
(Só um bilhete de paixão eu te escrevi)
Só um sorvete de limão eu consegui
(Pois me conduz, me joga ao vento o teu ardor)
Onde é que eu pus a droga do ventilador?
(Espero o abraço carinhoso, o meu albergue)
Quero um pedaço bem frondoso de iceberg
(É o apelo de teu par, ó meu amor...)
Me dá mais gelo pra botar no regador...
(Eu me orgulho desta sina que me guia)
E eu mergulho na piscina de água fria
(Até um corpo em que me veja revelada)
Até o copo de cerveja bem gelada
(Teu corpo esguio encobre a leve calmaria)
Sonho que esquio sobre a neve bem macia
(E me assombra a paixão abençoada)
E minha sombra aqui no chão tá bem suada.
(Eu vou mimar o meu amado para sempre)
Eu quero o ar condicionado bem de frente
(Tu não atinas que de chofre tenho paz)
A serpentina gela o chope do rapaz
(A tua amada viverá sempre ao teu lado)
É limonada, guaraná e chá gelado
(E eu sozinha, abandonada, nunca mais!)
Da caipirinha bem gelada eu quero mais!
Vany Grizante e Maria Iaci
domingo, 1 de agosto de 2010
Pequeno Dicionário Latim-Português
A latere = olha lá, Tereza!
A non domino = ah, dominó não!
Ab absurdo = um sujeito absurdamente gago.
Animus necandi = necas de ânimo...
Bona fide = é boa, mas fede.
Brevi manu = irmão que morreu novinho.
Caput = PQP!
Caso sub judice = casou na marra.
Conditio sine qua non = meu tio conde não quer ir ao cinema.
Confessio est probatio omnibus = confesso e provo que bati o ônibus do tio...
Consilium fraudis = aconselho o uso de fraldas.
Corpus delicti = corpo delicioso.
Custas pro rata = deixa a rata pagar a conta.
De cujus = virado pra lua.
Erga omnes = levantem, homens!
Est modus in rebus = tenha modos, mesmo no meio de um rebu.
Ex abundantia = tia bunduda que emagreceu.
Ex expositis = ex-marido da tia.
Expressis verbis = verbos ligeiros.
Facultas agendi = agenda da faculdade.
Hic et nunc = não soluço nunca mais!
ld est = vá pro leste.
lmpotentia generandi = general brocha.
lmprimatur = imprima você, ora!
In loco = no louco.
Norma agendi = agenda da Norma.
Notitia criminis = não tenho tia criminosa.
Pari passu = (no jogo de poker) paro e passo.
Passim = passo pequeninim.
Persona non grata = pessoa mal-agradecida.
Post scriptum = poste todo pichado.
Prima facie = cara da prima.
Quaestio facti = qual é, tio, faz aí!
Res furtiva = vaca dissimulada.
Res litigiosae = vaca brava.
Sententia est = você tem tia no leste?
Sub voce = embaixo de você.
Venda ad corpus = prostíbulo.
Versus = poesias.
sábado, 31 de julho de 2010
Pequenos Monstros
Neste fim de semana assisti a um DVD da BBC (vixe, quanta sigla!) chamado "Pequenos Monstros", que estava mais preocupado em exibir as excelências da tecnologia moderna, com as microcâmeras e as fibras óticas, do que em explicar mais detalhadamente o comportamento dos astros principais, ou seja, dos simpáticos representantes dos reinos insetal, aranhal e vermal. Mas que, ainda assim, foi bem legal!
Dentre todos os pequenos e fofos monstrinhos, o que mais me inpressionou foi uma espécie de aranha que vive sei lá onde (esqueci), em que o aranho é quem faz o ninho. E no maior capricho, com a precisão de um engenheiro, com o esmero e a arte de um arquiteto e com a boiolagem de um decorador.
Os aranhos ficam lá fazendo os ninhos na terra e as aranhas vão passeando, examinando um aqui, outro ali, até escolherem o mais bacana. Aprovado o ninho, automaticamente aprova-se o aranho construtor. Então a aranha chega juntinho do eleito e diz pra ele em aranhês que tá a fim. Daí o aranho pega e transa com ela, o que acontece mais rapidamente do que o tempo que eu levei pra dizer "o aranho transa com ela".
E vejam vocês, lerdos leitores, vós que levais de sete a nove meses pra preparar um bebezinho, em 20 minutinhos a aranha já põe um ovinho e vai-se embora toda serelepe. O aranho, então, limpa e enterra cuidadosamente o ovinho em seu ninho, e fica lá esperando pela próxima. Bem, a julgar pela quantidade de ovinhos enterrados no ninho, é um entra-e-sai de aranhas em alta rotatividade, maior embalo!
Mas às vezes acontece de chegar uma aranha que examina toda exigente o apê do rapaz, aprova, concede -- o aranho vai lá e manda ver! -- e aí os minutos vão passando e o aranho vai ficando cabreiro, nervoso. Depois de esgotado o tempo regulamentar e vendo que não sai nenhum ovinho daquela pilantra estéril, o bicho manda ela ir embora que ele tem mais o que fazer. Mas a bicha, vingativa, antes de sair vai lá e rouba alguns dos ovinhos alheios e os come sem nenhuma cerimônia. Então o aranho parte pras vias de fato e pra ignorância e tasca umas mordidonas nos cambitos da ladrona e põe ela pra correr.
Semanas depois, os ovinhos eclodem e nascem muitas aranhinhas e aranhinhos, que ficam por ali com o orgulhoso papai, que tem só uns 2 ou 3 dias pra ensinar todos os fatos da vida pra filharada antes que ela saia pro mundo.
O que o filme não explica é: o que acontece depois? O aranho cai na balada? Abandona aquele ninho e vai passear por aí, conhecer outras paisagens, outras espécies, fazer um intercâmbio cultural? Quanto tempo leva entre um ciclo reprodutivo aranhal e outro? Será que no próximo, o aranho, a quem a gente já se afeiçoou tanto, vai fazer o mesmo sucesso que fez neste?
* * *
Outro ser que me impressionou foi a lesma. Quando chega o ciclo da furunfação, ela chega por trás da outra e dá-lhe uma beliscada no bumbum. Esta é a senha pra que as duas subam por uma árvore, escorreguem por sob um galho, soltem um fio de baba gosmenta no qual se penduram e começam a se enroscar uma na outra, tal qual uma cadeia de DNA. E, sendo hermafroditas, ambas têm piu-piu e periquita. Só que, em vez de fazerem as coisas como a gente pensa que deveriam fazer, depois de estarem totalmente enroscadas, elas começam a enroscar também seus piu-pius um no outro até fazerem uma bola de esperma e só então fecundam-se uma à outra -- ou um ao outro, como queiram --; mas o mais incrível é que levam uma hora inteira nesta enroscação desenfreada!
Conheço alguns gays que adorariam fazer o que elas fazem! Vão todos pedir pra serem lesmas na próxima encadernação!
* * *
E a centopéia, que leva nada menos do que duas horas no rala e enrosca!
Porém, antes que vocês as invejem, deixem-me esclarecer que, antes de partir pros finalmentes, o centopéio tem que usar toda a força e persuasão de suas cem perninhas pra desenrolar a centopéia, que fica lá fazendo o maior doce e não dá mole, não! Depois que consegue a muito custo desenrolar a moça, duas das perninhas dianteiras do centopéio transformam-se em piu-pius e ele vai lá e penetra num orifício que fica logo abaixo da cabeça da pernuda.
Agora, não sei se devido ao fato de ter poucas centopéias e sobrarem centopéios, ou se porque a centopéia protagonista do filme era mais jeitosinha e gostosona do que as outras, o fato é que, enquanto o casal tá lá no maior love, chega um outro centopéio e, sem a menor cerimônia, vai pisando com a sua centena de perninhas sobre o casal e tenta desesperadamente separá-lo pra tomar o lugar do outro.
No caso, o primeiro centopéio venceu a parada e botou o intrometido pra correr. Ufa!...
* * *
Finalmente, impressionou-me muito verificar que existe mau-caratismo também nos reinos insetal, vermal e aranhal -- é centopéio querendo empatar a transa do outro, é aranha roubando ovinho do aranho, é outra aranha roubando o mosquito que pousou na teia alheia, e por aí vai...
Mas, não importa quanta ventura possa haver na vida sexual-amorosa da bicharada, porque acho bom mesmo é pertencer ao reino hominal-mulheral. Por mais que tenhamos desvantagens como pagar impostos, pagar micos, aturar políticos corruptos, protozoários no trânsito, trogloditas no dia-a-dia etc, no final das contas somos bem mais bonitinhos do que aqueles pequenos e nojentos monstrinhos...
(Este texto foi escrito no segundo semestre de 2005)
sexta-feira, 23 de julho de 2010
"Brasília - Capital da Esperança"

Há um hino a Brasília cujo título é o verso final da letra -- e que a maioria dos brasilienses pensa que é o hino oficial, de tanto ouvi-lo por aqui -- "Brasília - Capital da Esperança".
Ao ouvi-lo hoje, me pus a refletir sobre o seu significado... e cheguei a algumas conclusões.
Sim, Brasília é de fato a Capital da ESPERANÇA.
- Muitos brasileiros ESPERAM que Brasília se exploda e desapareça da face da terra, como se a cidade em si fosse responsável pela corrupção desenfreada e os desmandos de alguns políticos e governantes deslumbrados.
- Vários brasileiros ESPERAM pegar carona nas mamatas oficiais e oficiosas que emanam daqui, como a bolsa esmola (que dá o peixe mas não ensina a pescar), o salário presidiário (sem que o preso trabalhe dentro da cadeia), as verbas pro MST (pra custear invasões de fazendas produtivas), só pra exemplificar.
- Outros tantos ESPERAM ser eleitos pra poderem vir pra cá, por dois ou três dias na semana, exceto nas longas férias e feriados, ganhando salários indecentemente altos, várias ajudas de custo, até décimo sétimo salário, passagens aéreas gratuitas, mordomias mil, imunidade parlamentar, empregos fantasma pra familiares e cupinchas, além de meios perfeitamente propícios pra se fazer todo tipo de falcatrua e negociata.
- E mais outros tantos brasileiros, em especial os brasilienses de fato e de coração, como eu, ESPERAM ansiosamente que o resto do Brasil pare de mandar esses pulhas pra cá, mandando em seu lugar políticos verdadeiramente honestos e bem intencionados ou então que, pelo menos, anule seu voto caso não haja candidatos confiáveis em quem votar.
Até porque o Brasil inteiro precisa disso desesperadamente.
Ato falho

Os pensamentos, às vezes, tomam atalhos e fazem associações sem que o pensante tenha consciência do fato. Por isso, muitas vezes falamos algo quando, na verdade, pensamos outra bem diversa. Isso acontece especialmente quando a nossa mente está ocupada com dois assuntos diferentes ao mesmo tempo. Diz-se, então, que cometemos um ato falho. Eu, particularmente, prefiro dizer que foi um mico mesmo.
Foi assim que aconteceu com a minha grande e distraída amiga, a Lu, numa ocasião em que foi estudar na casa de um nosso colega, cuja mãe havia preparado um lanche que mais parecia um banquete, a ponto de fazer com que a minha esfomeada e gulosa amiga ficasse como que hipnotizada. Afinal, todos sabem que estudar muito dá uma fome danada.
Ela estava pronta pra provar cada um dos petiscos, quando o pai do colega entrou na sala de jantar e avisou à esposa que iria dar uma passada no órgão público tal, onde trabalhava. A mãe da Lu trabalhava neste mesmo órgão. Então, sem parar de olhar pr'aquela mesa farta e apetitosa, ela falou assim:
-- Ah, o senhor deve comer muito a minha mãe!
O tempo parou. Todos na sala ficaram congelados e com os olhos escancaradamente arregalados. O pai do colega, com a voz hesitante, constrangida e lenta, retrucou:
-- Eu... acho... que... não.
Vivi, outra colega presente, que estava louca pra dar uma gargalhada, virou-se pra Lu e tentou remediar:
-- Lu, eu creio que você quis dizer "O senhor deve CO-NHE-CER muito a minha mãe", não foi?
E a distraída esfomeada, muito surpresa, perguntou na maior inocência:
-- E não foi isso o que eu disse?
Aí sim, todos caíram na gargalhada.
Se eu fosse o Conan Doyle...

Depois de dar uma breve porém muito atenta olhada no seu desconhecido interlocutor, Sherlock Holmes assim se pronunciou:
-- Vejo que o senhor costuma viajar à França, que mora no interior, que aprecia a vida ao ar livre, que gosta de comida italiana, que fuma charutos, que é míope, que é solteiro e que tem um bom rendimento financeiro.
-- Impressionante! -- exclama o homem -- Poderia me dizer como chegou a todas estas conclusões?
-- Elementar, meu bom homem! -- respondeu o famoso detetive -- Apenas usei minha arguta observação e minha infalível inteligência analítica...
-- Pois bem, -- retrucou o desconhecido -- então explique-me, por obséquio, como o fez...
-- Naturalmente. -- concordou Mr. Holmes -- O seu casaco de corte e tecido franceses deu-me a pista de suas andanças. As botas sujas de lama indicam que mora no interior, onde as estradas não têm pavimento. Sua pele bronzeada revela o seu estilo de vida ao ar livre. Esta pequena mancha de molho de tomate na lapela atesta seu gosto pela culinária italiana. Os fios amarelados no centro do seu bigode demonstram seu hábito de fumar charutos. Seus olhos constantemente apertados revelam a miopia. A ausência de aliança na sua mão esquerda diz-me que não é casado e, finalmente, a qualidade das suas roupas e calçados fala-me sobre sua condição financeira.
-- Estou deveras impressionado, Sir... -- declara o interlocutor -- Mas devo rebater um a um dos tópicos que o senhor mencionou.
E, diante da expressão de cética surpresa estampada no rosto sério de Mr. Holmes, continua:
-- Um amigo francês presenteou-me com este paletó que não mais lhe servia. A bota, sujei-a de lama ao visitar as obras de reforma dos jardins da casa de meu empregador. Minha pele bronzeada se deve ao fato de que, aproveitando a chegada deste verão, reconstruí com minhas próprias mãos o telhado de minha humilde casa. A mancha na lapela foi causada pelos respingos do tomate que caiu da caixa que o verdureiro carregava sobre sua cabeça, ao passar por mim pela rua. Os fios amarelados no meu bigode, de fato, devem-se ao meu hábito do tabagismo, mas prefiro os cigarros feitos à mão aos charutos. Meus olhos constantemente apertados devem-se à fotofobia e não à miopia. A ausência de aliança em meu dedo anular explica-se pelo fato de que, tendo perdido muito peso devido a uma doença crônica, precisei mandá-la ao joalheiro para que fizesse o necessário ajuste. E a qualidade do meu vestuário explica-se pela circunstância de que minha prima predileta, tendo enviuvado recentemente de um abastado negociante, presenteou-me com as roupas e botas de seu falecido marido.
Elementar, meu caro Holmes.
*
Este texto é só uma brincadeira despretensiosa, porque na verdade sou fã do Conan Doyle e do seu impagável Sherlock Holmes. :)
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Passatempos para um trânsito congestionado

Não há melhor maneira de se começar o dia do que enfrentando um trânsito ultra congestionado!
Seu carro se arrasta leeeeeentamente por dois ou três metros e pára. Então você tem tooodo o tempo do mundo pra jogar uma partidinha de qualquer coisa no celular, limpar sua caixa de entrada e de saída no dito cujo, lixar as unhas, pregar os botões que caíram do seu casaco predileto, ler o Ulisses do James Joyce, de cabo a rabo, umas cinco vezes; ou ainda ficar apreciando os mais variados modelos de carros, caminhões, camionetes, vans, motocicletas, analisando suas características estéticas e técnicas, estilos, cores, acessórios; quiçá olhar pros pedestres, tão livres e soltos lá fora, e reprimir uma invejazinha deles ao imaginar que muito provavelmente eles saíram de ou estão indo para um ônibus mais lotado do que lata de sardinha.
De repente, pára um carro ao seu lado. Pra ser um trio elétrico, só falta o tamanho, porque o repertório e os decibéis das músicas (o termo é uma licença poética) são bastante apropriados. Claro, você desliga o seu som, onde rolava bem baixinho um blues ou jazz, e passa a curtir uma eguinha pocotó ou uma cachorra sei lá o quê ou qualquer coisa acerca de uma boquinha de garrafa. E ainda pensa como é bom poder variar e enriquecer seu repertório.
Por vezes, descobre novos passatempos pra se distrair no engarrafamento (será que a tal boquinha da garrafa tem a ver com isso?), como por exemplo, tentar adivinhar quantas vezes o sinal lááá na frente irá abrir e fechar antes que você consiga chegar lá. Recomendo fechar a janela ao praticar este joguinho, porque os trezentos e quarenta oito vendedores de balinha, água, pano de chão, pano de prato, bonecos infláveis, chiclete, chocolate, bem como os entregadores de folhetos os mais variados certamente irão lhe abordar sem trégua.
A menos que você prefira passar o looongo tempo de espera justamente lendo cuidadosa e atentamente todos e cada um destes folhetos. E ainda irá aprender algo a respeito de sua língua escrita, como por exemplo, a grafia do termo "tela mosquEteira", "entrega À domicílio", "conCerto de inGeSSão eletrOnica" e por aí vai.
Há também o excitante jogo de adivinhação que consiste em tentar prever qual dos carros vislumbrados nos seus retrovisores irá se espremer perigosamente entre os demais a fim de tirar um fino magistral da lataria do seu carro e tomar a sua dianteira, entre roncos furiosos de motor e guinchos agudos dos pneus nas freadas súbitas. Pura adrenalina! Melhor que bangee jump!
Por fim, ainda há a chance de rolar uma paquera, porque 99,99% dos carros à sua volta levam apenas o seu ou a sua motorista, cuja condição solitária, ainda que transitória (com trocadilho), facilita bastante o desenrolar da coisa.
Caso não obtenha sucesso nesta empreitada, pelo menos lhe restará o consolo de ler nos vidros traseiros dos muitos chevetes e corcéis e caravans que uma certa divindade lhe é fiel e que outra, ainda, lhe ama. Pelo menos alguém lhe ama e lhe é fiel, não é mesmo?
Está vendo só como é super divertido pegar congestionamento? Não entendo porque as pessoas reclamam tanto...
Fã de desenhos animados

Desde criança sou fã dos desenhos animados.
Dos comuns da TV -- quem da minha geração não se divertiu horrores com a Tartaruga Touché, Lip the Lion and Hardy Har-Har, Pepe Legal, Bob Pai e Bob Filho, Olho Vivo e Farofino, Mandachuva, Zé Colméia e Catatau, Wally Gator, Speed Racer, Homem de Ferro, O Poderoso Thor, Johnny Quest? --, até os mais que perfeitos desenhos animados do Walt Disney.
Nunca deixei de gostar do gênero, nem mesmo naquela época em que os universitários faziam de tudo pra parecerem muito maduros e politizados, evitando a todo custo qualquer hábito ou preferência que os associasse ao tolo universo infantil.
Este causo sucedeu-se num domingo, em pleno final de semestre, quando a gente se reunia na faculdade pra fazer os zil trabalhos e projetos, frequentemente virando noites e mais noites pra conseguir dar conta do recado.
Pois justamente naquele domingo -- e só naquele domingo, numa única seção -- estaria sendo exibido num cinema da cidade o meu filme predileto de animação do Walt Disney: Fantasia. Ainda não havia os videocassetes, de modo que esta seria uma oportunidade imperdível.
Planejei contar uma mentirinha inócua pros colegas quando chegasse a hora de ir pro cinema, que eu não era besta de dar bandeira de infantilismo no meio daquele bando de gozadores ou de sisudos ativistas do movimento estudantil.
-- Pessoal, desculpa, mas eu tenho que buscar minha tia no aeroporto.
Não só ninguém se deu conta de que isso seria impossível, posto que o meu veículo naquela época era uma bicicleta comum de dez marchas, como vieram as réplicas uma após a outra:
-- Ah, tudo bem. Eu também tenho que ir pra casa, dar banho no cachorro.
-- E eu tenho que ir no pronto-socorro, cof-cof, tô pra morrer aqui!
-- Hoje é aniversário do meu pai, tenho que ir também.
-- Eu vou no casamento do meu primo.
E sem perda de tempo, cada qual com sua desculpa esfarrapada, foram todos embora ligeiros.
E qual não foi minha surpresa quando, ao chegar no cinema, encontrei todos os colegas lá!
:)
O tempo passou, as técnicas evoluíram e eles nem se chamam mais "desenhos animados", são pura e simplesmente "animações". Há muito que já não me importo de declarar abertamente meu gosto por eles, os desenhos, ou por elas, as animações. E ontem fui assistir A Era do Gelo 3 em 3D, com uma amiga.
Chegando lá, foi com um sorriso cúmplice e admirado que percebi na plateia, entre as muitas crianças presentes, vários casais de namorados, gente de meia idade e alguns simpáticos velhotes, todos absolutamente desprovidos do álibi de ter levado o filho, o sobrinho ou os netinhos. Foram lá, sem pudor algum, do mesmo modo que eu e minha amiga, pra assistir a animação por vontade própria.
E as risadas mais altas e divertidas vinham justamente dos marmanjos e marmanjas que se esbaldaram com o filme!
Eu já havia observado o mesmo "fenômeno" ao assistir Ratatouille, A Noiva Fantasma, Schreck, bem como A Era do Gelo 1 e 2, entre outros.
Muito melhor do que prozac, vale por umas 15 seções de análise ou umas 6 cartelas de ansiolíticos.
Pobreza de espírito x livre pensar

Desconheço a interpretação dos estudiosos da Bíblia sobre o termo "pobre de espírito".
Mas eu tenho uma, pessoal, não-particular e perfeitamente transferível.
Pra mim, pobre de espírito é a pessoa que não busca o crescimento espiritual, simples assim.
E ainda sob o meu modesto ponto de vista, o crescimento espiritual se dá quando exercemos o livre pensar.
O livre pensador não se atém a uma só filosofia, religião ou doutrina que seja -- ele escolhe e acolhe aquilo que lhe fala ao espírito, não importa a origem.
O livre pensador não deixa os neurônios ociosos. Está sempre buscando respostas e acaba descobrindo novas perguntas. E nunca se dá por satisfeito -- quanto mais aprende, mais sente acentuada a própria ignorância sobre tudo o que o cerca. Por isso mesmo, julga menos do que observa e aprende mais do que ensina.
O livre pensador amplia seus horizontes, porque toma a devida distância dos fatos e, assim, enxerga mais longe. E, enxergando mais longe, insere o fato analisado num contexto mais amplo, obtendo mais e melhores parâmetros que lhe sugiram significados.
O livre pensador aceita as diferenças -- portanto, não aceita e nem impõe padrões inflexíveis; em outras palavras, o livre pensador não se julga dono da verdade, da virtude e da razão, porque sabe que estas não têm dono, são relativas e transitórias.
Por fim, o livre pensador sabe que o seu maior bem, seu maior patrimônio, não está contido na matéria, mas no espírito.
Abre parêntese. Entendo por espírito a nossa capacidade de sentir, discernir, compreender e apreender o que a razão ou os sentidos recolhem. Fecha parêntese.
Então, voltando ao início, penso que "pobreza de espírito" é o ódio pelo diferente, a inveja pelo afortunado, a indiferença pelo sofrimento alheio, a deslealdade, a injustiça, a desonestidade, a mentira, o rancor, a perversidade, a crueldade, o instinto destrutivo, a maledicência, a calúnia, a vingança, a mesquinharia, entre tantas outras qualidades negativas como estas.
Se o pobre de espírito soubesse que, mantendo-se nessa miséria existencial, sofre muito mais do que o seu suposto "inimigo" -- e, ao contrário, o livre pensador, ainda que se angustie no caminho do crescimento e sofra algumas dores inevitáveis, ao alcançar cada uma das muitas metas a que se propõe experimenta o incomparável e insubstituível êxtase prazeroso da descoberta --, então veria que está perdendo um tempo precioso e desperdiçando uma energia fundamental.
Lanço aqui a campanha -- libertemos o pensamento e enriqueçamos o espírito.
É tempo de jogar fora o lixo inútil.
E, então, vivamos e deixemos viver...
Trocando alho por bugalho

Tem gente que vive trocando as palavras, por pura distração. E muitas vezes nem se dá conta. Embora possa resultar em tragédia em alguns casos, em outros se torna pura comédia.
Era o caso da minha tia Dinda.
-- Moço, me vê um pote de Catupiru?
-- Quando for descer a escada, segura no rodapé.
-- Gama, hoje à noite eu vou na sua cama.
Não, seus maliciosos, a tia Dinda não era uma Mara Tara. Ela queria dizer "casa", mesmo.
Mas a campeã em trocar alho por bugalho foi a mãe de uma colega. Ao perceber um leve estrabismo na filha, levou a menina ao oftalmologista. E, conversadeira que só, ficou batendo papo animadamente com as pessoas que lotavam a sala de espera.
Até que alguém perguntou qual era o problema ocular da garota.
Ela, então, fez um gesto com os dois dedos indicadores voltados pra dentro, na altura dos olhos, e arrematou com a sentença:
-- Ela é lésbica.
Livros que li na infância:

Meu, pede laranja lima! - saga de um retirante paulistano da Mooca que, fugindo da vida adversa em Sampa, imigra pro sertão do Caicó em busca de melhor sorte.
Pole, Ana! - um relato emocionante da vida e obra da polidora de caras-de-pau, Ana, funcionária do senado.
Vi das secas - impressionante descrição de como o explorador destemido vislumbrou as raras e até então desconhecidas mãos de políticos que não foram molhadas. Ainda.
Sem hora - uma história muito triste, em que um vendedor de relógios descobre que roubaram todos os ponteiros.
Ir à Cema - descrição pormenorizada das aventuras e desventuras do herói, no percurso feito desde Baexo até Cema.
Amor e Ninha - romance épico que revela os caminhos e descaminhos de Ninha, moça inocente que buscava encontrar o amor, mas não o encontrava nunca.
Ô, corte isso! - romance realista, que faz um corte nu e cru na carne do próprio leitor ao relatar como eram feitas as cirurgias nos tempos de antanho.
Ô, ate n'eu! - pungente história sobre um terrorista suicida, que sempre que via alguém carregando algumas bananas de dinamite, logo implorava pra que atassem todas a ele.
Os Certões - eles não erravam uma, nunca!
Micos

Primeiro causo
O almoço ia animado e concorrido. Todos os amigos do casal recém-casado estavam presentes, lotando o apErtamento, e conversavam animadamente sobre zil assuntos ao mesmo tempo, como de costume. Lá pelas tantas, chegaram umas cinco ou seis pessoas que me eram levemente familiares -- o que me levou a deduzir que seriam daqui da cidade, já que ninguém fez as devidas apresentações -- e que ficaram sentadinhas, todas juntas, num cantinho da sala, conversando baixinho.
Foi então que alguém fez a pergunta fatídica:
-- Vocês foram assistir ao Maria, Maria?
Sim, eu fui.
Na primeira temporada, quando o Grupo Corpo passou por aqui, em turnê nacional, fui lá conferir e me encantei com tudo! Coreografia -- sempre me impressionou a capacidade dos bailarinos de fazerem com toda leveza, suavidade e elegância, os esforços físicos mais alucinados, possíveis e impossíveis --, bem como figurino, cenário, iluminação e, claro, a impecável música do Milton Nascimento e performance dos artistas.
Depois disso, o Grupo apresentou mais alguns espetáculos -- todos maravilhosos -- e, em seguida, partiu pra turnê internacional e levou o Maria, Maria pro mundo todo ver e aplaudir. Sucesso absoluto!
Na volta, uns 3 a 5 anos depois da primeira temporada, resolveram refazer uma turnê nacional com este mesmo espetáculo e novamente passaram por Brasília.
Isso aconteceu justamente por ocasião do almoço lá no apErtamento do casal amigo. E a linguaruda aqui resolveu responder à pergunta feita:
-- Eu fui, mas não gostei desta vez... Na primeira temporada, eu achei maravilhoso, tão original e emocionante, tão forte e ao mesmo tempo suave, bonito, e eles dançavam com evidente prazer e volúpia... Mas desta vez eu achei que eles já estavam enjoados desse trabalho, depois de tantos anos apresentando o dito cujo pelo mundo afora. Achei que eles dançaram burocraticamente, sem tesão, como quem vai cumprir expediente só pra bater o ponto.
Nem bem acabei de dizer isso, uma colega ao meu lado enfiou com decisão seu indignado cotovelo nas minhas desprotegidas costelinhas e sussurrou no meu ouvido:
-- Você sabe quem são aquelas pessoas ali no cantinho, que chegaram ainda há pouco?
-- Sei não... quem são eles?
-- Bailarinos do Grupo Corpo.
Fecha o pano. Rápido!
*
Segundo causo.
Também um almoço, desta feita numa linda casa em Búzios.
Minha amiga B., que andava pela cidade a passeio, estava presente neste almoço, levada por um colega. Não conhecia nenhuma outra pessoa, mas, longamente treinada pela vida de filha de diplomata, ficava perfeitamente à vontade entre estranhos. No entanto, neste dia em particular, talvez acometida por uma TPM galopante, ela não se sentia nada diplomática e, pra piorar, estava um tanto entediada com a conversa fiada dos ilustres desconhecidos e com a música de fundo.
Lá pelas tantas, alguém falou:
-- Vou botar um disco da N.C.. Alguma objeção?
-- Sim. -- disse a minha amiga, um tanto ácida -- Eu faço objeção. Não suporto essa cantora! A voz dela e o jeito de cantar são intragáveis! -- arrematou dando uma profunda tragada no cigarro.
O colega dela, que estava ao lado, então, perguntou bem baixinho:
-- Você sabe de quem é esta casa onde nós estamos?
-- Sei, de uma amiga sua.
-- Na verdade, esta casa é da mãe da minha amiga... E a mãe dela é a N.C..
Fecha esse pano logo, antes que alguém pague outro mico horrendo desses!
Ciúme

O ciúme nasce no pensamento.
A pessoa primeiro tem que pensar -- pô, tô sendo traída(o)!
Não. Não é assim tão simples. A raiz e causa primária desta triste constatação, que também vem do pensamento, é a estranha distorção que os fatos reais sofrem lá pelos intricados caminhos neuronais no cérebro da(o) ciumenta(o).
Pra ilustrar esta idéia, vou contar mais um causo.
Há uma expressão muito boa, que traduz com perfeição aquela situação em que a pessoa enxerga coisas que, na realidade, não estão ali -- "ver chifres na cabeça de cavalo".
Assim é com o ciúme mega-ultra-super-hiper-exacerbado.
Só que, no caso, muito tristemente, não se vê os chifres exatamente na cabeça do aliviado equino.
Para este tipo de ciumenta(o), toda e qualquer pessoa do sexo oposto que se aproxime do seu ser amado, ou que simplesmente se encontre dentro do seu campo de visão, torna-se imediatamente uma ameaça. Não potencial, mas real. Na sua fértil imaginação, naturalmente.
E este era o caso de Margarida.
Tava lá o Pitchuquinho saindo da facul de mãos dadas com a Margarida, quando chega uma colega deste, a Cássia Carolina Duncan Ro Ro, e começa a conversar:
-- E aê, rapá? Bora bater uma bolinha no sábado e depois vamo jogar uma sinuquinha de leve, hein? Tomar umas breja com linguicinha, hein? Linhais, cê tem umas chuteiras pra me emprestar, véi? As minhas eu emprestei pro Sandrão, aquela minha amiga que trabalha na estiva, tá ligado?... Pensando bem -- ela diz enquanto olha pros pés do rapaz -- acho que não vai dar... seus pés são muito pequenininhos!
Mas o que a Margarida ouvia era o seguinte:
-- Ai, meu gostosão irresistível, meu garanhão atlético, meu atleta de colchão, meu docinho de coco ralado... * suspiro * ... que tal um motelzinho no sábado depois do seu futebol e da sua sinuquinha, hein, meu gatinho manhoso?
Depois quem pagava o pato era o pobre do Pitchuquinho, que tinha que ouvir uma enxurrada de "gentis" palavras, sem ter feito nadinha que justificasse o fato.
E era sempre assim, fosse a velha tia de Botucatu tamanho GGGplus que veio pra visitar, fosse a priminha magérrima, de pernas tortas, dentucinha, com um ligeiro problema de acne e um discreto estrabismo, fosse a faxineira do supermercado, a médica do posto de saúde, a avó do melhor amigo, a própria irmã, a sobrinha de sete anos de idade, não tinha conversa. Margarida logo enxergava trocas de olhares e de e-mails, telefones, orkuts e facebooks; via línguas sendo passadas lenta e sensualmente pelos lábios, olhares de peixe morto, poses lascivas e sensuais, tudo dirigido inequivocamente ao seu Pitchuquinho... e mandava ver na bronca -- espinafrava tanto o coitadinho, quanto a involuntária e inocente "rival", que ficava com cara de será-que-ela-tá-me-confundindo-com-outra-pessoa?
Um dia o Pitchuquinho se cansou dessa história. Não é que tivesse deixado de amar a moça, mas simplesmente não conseguia mais se acostumar à coleira. Nem à bola de ferro presa aos pés. Nem às correntes e cadeados. Nem à burka. E muito menos às alucinações da Margarida, que decididamente estava a cada dia viajando mais e mais na maionese.
Então deixou a moça e se casou com a Literatura.
Dizem que hoje em dia o casal está muito bem, obrigada, e que já teve muitos filhinhos -- Conto, Crônica, Romance e Poesia. E ainda há um Ensaio na barriga.
E a Margarida?
Deve estar com o Tchutchucão, agora, e como de hábito, provavelmente ainda estará a enxergar enormes guampas na cabeça de uma certa imaginativa e ciumenta potrinha...
Na repartição

-- Dona Clotilde, cadê o relatório?!
-- Só se for agora, chefia! Num minutinho!
O "chefia" sai batendo a porta, esbaforido, chiando e soltando mais fumaça do que trem antigo. E a Dona Clotilde imediatamente volta à postura e expressão relaxadas de costume. Pachorrentamente, tira uma lixa de unhas da bolsa e começa a manicurar seus impecáveis apêndices digitais de quase 5 centímetros, os quais lhe servem de álibi perfeito pra justificar o ritmo de lesma paralítica com febre reumática com que digita seus raros e parcos relatórios. Abre parêntese. Quando se trata de mandar e responder e-mails pessoais, daqueles cheios de pps e de correntes e de alertas e dicas de saúde e receitas pra celíacos e fotos de crianças desaparecidas e aquelas piadas que, de tão batidas, praticamente já circulam pela rede por moto próprio, o ritmo e a quantidade sofrem um ligeiro incremento. Fecha parêntese.
A colega da mesa ao lado, com jeito conspiratório, pergunta baixinho:
-- Ô, Clotilde, você não vai fazer o relatório agora? Olha que o Chefia tá soltando lava incandescente pelos poros...
-- Ah, não esquenta, não!... Esse cara vai ter um piripaque qualquer hora, se não aprender a relaxar... Não sei pra que tanto estresse! No fim, vai tudo pro arquivo, mesmo.
Depois do trato às unhas, do quarto cafezinho com biscoito, do sexto copo de suco de maracujá, de oito saidinhas pra fofocar com as colegas lá do outro departamento e de tirar xerox de uma receita de bolo que saiu na revista que a moça da copa emprestou, finalmente Dona Clotilde se acomoda devidamente em sua cadeira, ressuscita o PC que tava tirando um cochilo, ajeita o teclado, o mouse pad, e assume a atitude alerta e concentrada de quem vai principiar uma tarefa importante.
-- Eita, Clotilde, resolveu finalmente desencavar o relatório, é? -- pergunta a conspiradora da mesa ao lado.
-- Que relatório?... Ah, aquele... Nada, menina! -- inclina-se mais pra perto da colega e cochicha -- Sabe a Dulcinéia, aquela que senta na mesa do cantinho lááá atrás? Eu pedi pra ela fazer e ela topou! Aliás, você já reparou como aquela criatura tra-ba-lha o dia inteirinho, sem parar? Eu fico até cansada só de olhar!... Credo, no mínimo, deve ser mal amada, coitadinha.
Com um suspiro profundo e cara compungida, volta a se concentrar na tela do PC. Faltava só um bocadinho pra terminar a partida de spider. E distraidamente ficou a pensar se, em seguida, jogaria solitaire ou freecell. Depois sorriu com o gozo antecipado da idéia da greve geral marcada pra semana seguinte -- pauta da reivindicação: aumento dos salários e benefícios --, uma oportunidade excelente pra ir passar uns dias em Caldas Novas ou Piri.
-- É isso que esgota uma pessoa, viu?... O tempo todo a gente tem que escolher e tomar decisões, sem ajuda de ninguém... Ufa, tô e-xaus-ta!... Já deu seis horas, meu bem?
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